domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um giro pelo mundo


Depois da longa noite sem lua que foi o mês de janeiro, um giro pelos pasquins mundo afora, estilo Bom Dia Brasil, para me inteirar sobre este chão em que ando pisando desatento:

The New York Times: Congresso dividido sobre os "detalhes" (pra onde vai o dinheiro) do pacotaço do Obama; A crise imobiliária pegou pesado na Flórida; Mais do mesmo no Afeganistão e no Paquistão... Nada muito interessante, enfim...

El País Online: Mega-incêndio na Austrália; Uma reportagem sobre um italiano lutando pelo direito de deixar sua filha, em estado vegetativo há 17 anos, morrer de vez; A velha ambição de Khaddafi de ser Rei de reis na África...

Times Online: Mega-incêndio na Austrália; Frio de matar (literalmente) na Inglaterra; Mais algumas sobre bancos quebrando... Menos interessante ainda do que o NYT...

Folha Online: Os gastos trilionários com a crise mundo afora; Mais um acidente de avião; E, enquanto o mundo especula sobre o tamanho do pacote do Obama e a Austrália queima, tem gente demais matando gente demais em Caraguatatuba; Mais um podre do Sarney é descoberto; Mais da eutanásia na Itália (ambas paroxítonas terminadas em ditongo crescente, mas incompatíveis no mais dos aspectos)...

Estadão Online: Brasil vai lutar na OMC para não ser prejudicado pelos pacotes protecionistas dos Ricos; PMDB doidinho por mais poder (ouxi, e ele tinha deixado disso?); Hoje tem Palmeiras e Santos; Mais uma do avião que caiu, do Mega-incêndio na Austrália (Ctrl C - Ctrl V) e do monumental pacote afro-americano do Obama...

Diário de Natal: "Homem mata esposa a golpes de foice em município do interior"; "Preso comparsa de um dos mais perigosos pistoleiros do RN"; mas, em compensação, "Cadela amamenta filhotes de ovelha no Seridó"...

Veja.com: Mais uma da revista sobre o Darwinismo (289a., pelas minhas contas); O governo por Dilma 2010 (e o Brasil, quem será por nós?); O renascimento de Mickey Rourke (o melhor dentre os Mickeys) no filme "O Lutador" (e se Isabela Boscov disse, pra mim 'tá dito)...

Economist.com: O retorno do nacionalismo econômico - a crise econômica contaminando a política, para horror do The Economist, que insiste em separar esses dois gêmeos siameses à fórceps; E "o mais influente" ainda arrumou espaço para falar d'A Volta Daquele que Não Foi - Sarney ("a throwback to an era of semi-feudal politics") presidente do Senado do Brasil ("Where dinousaurs stil roam")...

Newsweek.com: "Decadência? Eu passo" ("Decline? I'll Decline") - não confundir esmorecimento de um otimismo de resto exacerbado com o Declínio e Queda do Império Americano. Uma tirada particularmente saborosa: "A História não se repete. Mas é certo que rima. Os historiadores rimam, também". E, lembra o autor, os norte-americanos são ótimos em aprender com os próprios erros. Onde eu digo: "é, pode até ser - mas eles também são péssimos em reconhecê-los".

Parece que o mundo não parou por minha causa, afinal - mas continua o mesmo, girando em torno de si - eventualmente voltando ao mesmo lugar.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Rocky Balboa e o Ano Novo



No dia 1, meu primeiro filme do ano: Rocky Balboa. Não foi uma escolha deliberada, eu estava apenas zapeando quando dei de cara com o filme, já iniciado, mas ainda não muito longe do começo. Assim, fui atrás dele, e ao final me dei conta de que poucos filmes cairiam tão bem num início de ano.

Desde já, confesso: sempre fui fã do personagem, foi um dos heróis de minha infância (como não?) - aquela coisa de treinar bastante, ficar forte e vencer adversários assustadores caiu como uma luva em minhas fantasias de menino franzino e miúdo, assombrado, como Rocky, pelo medo dos mais fortes, mas impulsionado, como o "Italian Stallion", pela necessidade de superar esses medos, de provar-se.

Acontece que, quando soube do lançamento desse sexto filme da série, há uns dois anos, fiquei empolgado, e até comprei um DVD de "Rocky, um lutador", o primeiro de todos. E, aqui, minha segunda confissão: o filme, o primeiro de todos, beira o ruim (o ridículo, na verdade), me decepcionei bastante - quebrou-se o encanto, enfim. Só consegui identificar como algo realmente bom no filme aquela autenticidade comovente do personagem, um simplório plenamente consciente de suas limitações, mas com uma teimosa vontade de burro velho que o faz empatar a luta final contra o campeão do mundo, superior técnica e fisicamente - mas que havia perdido aquela coisa de lutar "com o coração". E só isso que Rocky tinha, coração.

Então, fui ver este Rocky Balboa com as piores expectativas possíveis, o que talvez tenha sido a minha sorte, afinal - porque o filme é muito melhor do que a encomenda. Eu tenho vontade de dizer que o filme é muito bom, o melhor da série, mas pode ser que assim eu pense justamente pela comparação com as baixas expectativas que eu tinha, antes de vê-lo.

Eu me explico, por partes.

Primeiro, o boxe sempre foi, para Stallone, uma metáfora da vida. E esse filme é uma metáfora da carreira do próprio Stallone - um ex-campeão, vivendo de glórias do passado. Depois da morte de sua esposa, parece que fica faltando algo pra Rocky. Mas disso eu não sei ao certo, porque eu peguei o filme quando Rocky já está caducando, procurando uma pequena que ele ajudou no primeiro filme, na época em que ela era ainda uma menina meio doidinha e desbocada.

O filme engrena quando o pessoal da ESPN resolve simular uma luta hipotética em computador, entre Rocky no auge e o atual campeão, Mason Dixon - um lutador muito talentoso, mas sem uma grande luta no currículo. O resultado, de acordo com o computador, seria a vitória de Rocky, por nocaute. Dixon se ofende com o resultado e os comentários generalizados de que não tem como saber o quão bom ele é, porque ele nunca teve um grande adversário. E Rocky se ressente por alguns comentários de que ele não é mais nada, um cachorro velho para o qual ninguém liga mais.

Rocky decide, então, se provar, e obtém uma nova licença para lutar entre os profissionais. Ele quer, como diz ao cunhado Polly, "soltar a besta negra que mora em seu porão". Os empresários de Dixon aproveitam essa crise de meia-idade de Rocky e a vontade de Dixon de provar pra todos que ele é, sim, um verdadeiro campeão, e armam uma luta de exibição entre os dois.

Rocky é, então, questionado pelo seu filho, e aí que ocorre o melhor momento do filme, aquele em que Rocky/Stallone se justifica e, de lambuja, ainda passa ao filho uma lição de caráter. Pense num pai porreta! Ele diz pro filho que o importante não é bater, mas aguentar apanhar e seguir tentando, apesar de tudo. Ele diz pro filho que o mundo não é um arco-íris, mas sim um lugar feio e sujo, e que ninguém vai bater mais forte nele do que a vida, e que ele foi um jovem excelente, mas que acabou se perdendo na busca por uma vida própria, porque esqueceu de quem era. Depois dessa, o filho resolve ficar do lado do pai na luta.

E a luta, que deveria ser de exibição, finda sendo um combate épico, em que a vitória deixa de ser fundamental - aqui, o que conta é provar-se, é conquistar para si a única forma de respeito que importa, segundo Rocky: o respeito próprio. No final da luta, Rocky confirma para Polly que soltou de vez a fera que trazia em seu porão, e não espera para saber se ganhou ou perdeu a luta, porque tem consciência de ter protagonizado um belo combate. Mais ou menos como deve ser com a vida. Então, caso em 2009 eu não consiga realizar todos os itens de minha listinha de planos, vou ver se dou um jeito de, pelo menos, descer do ringue como Rocky: com dignidade.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Eu sou é brega!


Eu sou das pessoas mais brutas que conheço. Para mim, o preto é preto, o branco é branco, o bonito é bonito, o feio é feio, o certo sou eu e o errado são os outros. Digo o que penso na maioria das vezes, e faço o que não devo quase sempre - e muito bem feito, obrigado. Não gosto de açúcar em meu café, não adulo criança pequena nem gente idosa, e não gosto de explicações com mais de três frases (introdução, desenvolvimento e conclusão). E escutar calado tem mais a ver com desatenção do que com concordância.

Por outro lado, eu sou um cara inegavelmente sensível (claro que sou!). Tem dias em que desconfio sentir até a poeira rolando por sobre a minha pele. Sociedade dos Poetas Mortos é um dos meus filmes prediletos, às vezes passo dias com um poema chacoalhando em minha cachola, e ver um pai de família chorando sempre aperta um pouco mais o eterno nó cego que há em minha garganta. E eu posso não ter essa sensibilidade toda para olhares, que não me dizem nada que eu não fosse descobrir de qualquer jeito, cedo ou tarde. Mas uma palavra, por vezes, vale mais que mil bofetes. E o soluço da Bem Amada (me perdoe, Vinícius) ribomba como um trovão dentro de mim, e ela chorando sou eu desmanchando e escorrendo pelo seu rosto - suas lágrimas.

Donde concluo, sem medo de errar (como sempre) e com a certeza dos que assumem a própria obtusidade com resignação (e uma certa arrogância): eu sou é brega. Esse misto de brutalidade e sentimentalismo barato só pode ser a semente de um girassol prestes a brotar em meu paletó colorido.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Zé Limeira em Campina Grande/PB


"Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraíba falada,
Cantando nas Escritura,
Saudando o pai da coiaida,
A lua branca alumia,
Jesus, José e Maria,
Três anjos da farinhada."

"Uma véia gurizada
Pra mim já é fim de rama
Um véio Reis da Bahia
Casou-se em riba da cama,
Eu só digo pru dizê,
Traga o padre pra benzê
O suvaco da madama".

"Jesus foi home de fama
Dentro de Cafarnaum,
Feliz da mesa que tem
Costela de gaiamum,
No sertão do Cariri
Vi um casal de siri
Sem compromisso nenhum".

"Napoleão era um
Bom capitão de navio,
Sofria de tosse braba
No tempo em que era sadio,
Foi poeta e demagogo,
Numa coivara de fogo
Morreu tremendo de frio".

"Meu verso merece um rio
Todo enfeitado de coco,
Boa semente de gado,
Bom criatoro de porco,
Dizia Pedro Segundo,
Que a coisa melhor do mundo
É cheiro de arroto choco".

"É difíce um home moco
Aprendê pirnografia,
Um professor de francês
Honestamente dizia:
Tempo bom era o moderno,
Judas só foi pro inferno
Prumode a Virgem Maria".

"São Pedro, na sacristia,
Batizou Agamenon,
Jesus entrou em Belém
Proibindo o califon,
Montado na sua idéia,
Nas ruas da Galiléia
Tocou viola e piston".

"Quando Jesus veio ao mundo
Foi só pra fazê justiça:
Com treze ano de idade
Discutiu com a doutoriça,
Com trinta ano depois
Sentou praça na puliça".

"Saíram lá de Belém
Cristo e Maria José,
Passaram por Nazaré,
Foram pra Betelelém,
Chupô cana num engen',
Pediu arrancho num brejo,
De noite armunçou um tejo
Lá perto de Piancó,
Na sexta-feira malhó
Foi que Judas vendeu Jésu!"

"Jesus saiu de Belém,
Viajando pra o Egito,
No seu jumento bonito,
Com uma carga de xerém,
Mais tarde pegou um trem,
Nossa Senhora castiça,
De noite ele rezou missa
Na casa dum fogueteiro,
Gritava um pai-de-chiqueiro:
Viva o Chefe de Puliça!"

"Eu me chamo Limeirinha,
Nascido lá no Tauá,
Entre casca de angico,
Miolo de jatobá,
Bico de pato vadio,
Piscilone, z-a-zá."

"Aonde Limeira canta
O povo não aborrece,
Marrã de moça donzela
Suspira que o bucho cresce,
Velha de setenta ano
Cochila que a baba desce!"

"Onde eu canto de viola
O povo chama São Braz,
A otomosfera agita,
Fica catingando a gás,
Polda de jumenta nova
Rincha de cair pra trás".

"Carmelita e Carmeluta
É tudo uma coisa só:
Carmeluta é pro chambrego,
Carmelita é pro xodó,
É prato de pirão verde
Com xerém de mocotó."

"Um General de Brigada,
Com quarenta grau de febre
Matou um casal de lebre
Prá comê uma buchada...
Quando fez a panelada
Morreu e não logrou dela,
Porco que come em gamela
Prova que não tem fastio,
Peixe só presta de rio,
Piau da tromba amarela".

"Cantador pra cantar com Limeirinha
É preciso ser muito envernizado,
Ter um taco de chifre de veado
E saber decorado a ladaínha,
Ter guardado uma pena de andorinha,
Condenar para sempre o carnaval,
Guardar terra de fundo de quintal
E é preciso engrossar o pau da venta,
Beber leite de peito de jumenta,
Ediceta, pei-bufo, coisa e tal!"
(Do maravilhoso livro de Orlando Tejo, "Zé Limeira, Poeta do Absurdo" - 5a Ed., Brasília, Senado Federal, 1980)

terça-feira, 24 de junho de 2008

“Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! Tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse ‘para onde estamos indo? ’ – não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’“.

(Raduan Nassar in Lavoura Arcaica)

sábado, 21 de junho de 2008

Por que nascem as estrelas?




E se esse nosso mundinho for o resultado de um violento e dramático choque de estrelas, com a explosão e fusão de ambas nesse nosso Sol? E se a poeira restante tiver formado mesmo esse bando de planetas, luas, asteróides e cometas que formam o nosso familiar sistema solar?

E se a vida for a conseqüência natural das condições ideais de acúmulo de compostos químicos sob a influência oportuna de determinadas condições de temperatura e pressão? E se a inteligência humana não for mais do que o resultado de uma sucessão de bem-sucedidas mutações genéticas, que prosperaram e se perpetuaram, e acumularam vantagens sobre vantagens em decorrência da seleção natural dos espécimes mais aptos, mais adaptados a superar as dificuldades impostas pelo acaso?

E se a propensão humana às ciências, às artes e à fé não passarem de uma espécie de programação do nosso cérebro, que nos impulsiona a imaginar sempre, criar sempre, ter fé e esperança sempre, numa busca incessante e impossível pela Eternidade – suprema amplificação da vida, aquela “busca da vida por si mesma” de que fala o Poeta Drummond?

E se essa nossa crença em um “Ser Superior” não for mais do que o resultado bem calculado pela inteligência infinitamente superior daquele ET que primeiro empurrou uma estrela na outra, e começou esse delicioso caos arquitetado, já com a intenção também de perpetuar-se, ou de começar um universo melhor do que aquele que ele tinha? Vai que ele achou de calcular tudo isso de tal forma que findasse n’agente crendo em um Deus, por ter chegado à conclusão de que era melhor ter que crer em algo além de nós mesmos?

E se esse ET também estiver buscando a explicação de tudo? E se ele já souber as respostas? E se ele houver descoberto as respostas, mas não a eternidade? E se estivermos fadados a repetir aquele ET? E se ele quis que o fizéssemos, pra começo de conversa? E se, de cada ET (ou Deus), surgiu (e surgirá) um Outro, melhorado mas ainda incompleto, ad infinitum?

E se, assim, tivermos, cada um de nós, um tantinho de deuses, a herança infinitamente ancestral e eterna de uma Busca perpétua, que sempre termina em nós mesmos?

terça-feira, 3 de junho de 2008

Tirando uma de Guimarães Rosa



Ilustração de Poty para "Grande Sertão: Veredas"


Figuro que sou diferente de todos, mas talvez nem seja tanto assim: minha vida decorreu trivial, sem grandes feitos de se exclamar nem grandes defeitos penados, purgados. Fui sertanejo, não sou mais – nem sei o que eu seja. Não me acho dentro de mim, a coisa definida, o meu algum miolo. Eu sou é água, mas não rio que corre: eu sou lagoinha funda de água barrenta. Em mim me perco, suspenso. Eu sou o nada pastoso, areia movediça.

E sido assim de em desde menino, pelo que me lembro demais de fantasioso, e solitário mesmo quando em bando de camaradas meus. Brincassem de alguma coisa, eu brincava com eles, mas era de coisa diversa, de significados em mim diferentes produzindo aqueles mesmos fazeres de menino: a fantasiação me pondo à parte, em ares demais de coloridos, demais de com garranchos de ordem somente. Era pau? Era, era espada coruscante para mim. Era pedra? Era jóia de poderes feiticeiros. Esconder-se: caçar ou tocaiar. Tudo sendo A Aventura sempre, de heróis e coragens, e a magnanimidade de Reis e Generais e os bons bandidos, por essa vida arrevesada, e bonita pelas cintilações desencontradas das muitas variadas pedras preciosas.

Sabiam meus camaradas que desempenhavam papéis próprios em minha estória só minha, alheia da deles, eu em mim forçando a Ordem daquilo tudo? Não, crianças são mundos. Não sei quem era eu dentro deles, também: fazendeiro ou soldado, ou ladrão ou peão. Pois em mim eles eram: os loucos vilões, ou os cavaleiros valorosos, ou os dispensáveis soldados, em guerra eterna de todos contra todos e tudos, se misturando sempre, e desmisturando diferentes, e Reis e Magos e Bruxos e Princesas, em enredos desencontrados por maus atores que eram – ou pela vida ser assim mesmo: ninguém entendendo seus papéis, nunca.

Minha meninice sendo assim a aquela invencionice minha, somente; e os alguns adultos sem entender minha sempre brincadeira, pegando à véra aquilo que era de brincadeira, e desfazendo de minhas doidices, graças a Deus. Pelo quê, peguei a crescer quando fui de Bom Lugar s’imbora para Mossoró, por estudos.

Lembro de lá ser dois: líder e chefe repuxando os rumos na escola, eu-somente em casa ou na Rua. Em casa eu forçava poesia, pelo muito que chorei no início daquela metade de segunda parte. Ao que foi, naquela época: brincar sozinho com as minhas verdades no início, para repartir com os outros as minhas mentiras depois.

Viver sendo sempre repartir mentiras, para caber na vida. A gente é, é grande demais, os espaços poucos no Mundo, e o tempo sendo outra coisa somente. A gente sempre guarda no fundo do tacho um restinho de nós-mesmos, pra Deus Menino se lambuzar no Juízo e ver o que presta e o que não presta. Acho que assim é, há de ser. Nojo de mim eu tive maior foi em saber disso, e perceber que somente raro se mente por não saber a verdade, que o normal é o mentir premeditado, doloso.

Dessas minhas bobéias, vergonhas tenho: quem sou eu pra sermão? E se for assim mesmo, e sendo verdades o que vejo mentiras, sendo eu O Idiota Estúrdio? Digo não, essas coisas, mais não. Ficou porque já disse, não desminto: Deus já viu, já tinha visto, até. Sendo Deus O Maior por ver as coisas sabendo o que foram e o que serão, Senhor De Todos Os Tempos. O tempo é de Deus somente. E Fé é crer que no Fim tudo vai dar certo, por mais errada que nos pareça a vida. E hoje eu tenho Fé, mas não foi sempre assim: ninguém nasce-morre Crente, somos gente por Duvidantes, também. Só bicho que sempre crê, e por isso desde sempre estão todos salvos. Eles, e Jó: “Post tenebras, spero lucem”.

De Mossoró, vim para Natal. Também por estudos, sendo a precisão de Aprender a força mandante nessa minha vida, reflito que desde o Início: pra isso que eu saí da barriga de minha mãe. Aprender é coisa que alegra, pra depois entristecer: eu figuro que estou sempre no Meio do Caminho, mas é sempre noite escura, e o Caminho talvez não tenha Fim – sendo assim que talvez não tenha nem Meio, nem Caminho. E sendo sempre Tudo e Nada com As Incertezas no Entre.

Natal, bom nome: Nasci de novo, e diferente. Sendo outro, sou Eu-Mesmo toda vida. Aqui fiz e desfiz amizades e amores, à custa de erros e acertos, e precisei de quebrar a cara, o coração e a perna, pra vislumbrar o que restou disso tudo. Sozinho-Dependente, com Deus por fora, que nem quando foi pra eu nascer da barriga de minha mãe, aí é que sempre me vejo melhor, me percebo mais, e o mundo torna a ser Novo. E eu não me canso, nunca, de Nascer.